
"DO CLAUSTRO", o figurino
Em meio às pesquisas que fiz, a grande preocupação era dar o aspecto de três séculos atrás ao figurino para "DO CLAUSTRO". Uma das providências que tomei foi fotografar, na surdina, a sala dos santos no Museu do Convento de São Francisco, em Salvador, quando lá estive, no final de maio de 2007. As cores dos hábitos das santas clarissas iam de encontro àquilo que dizia a Regra do Papa Urbano IV (a Regra que direcionou durante mais de seiscentos anos a Ordem de Santa Clara, até 1893, quando "descobriram" a Regra escrita pela própria Santa Clara).
Na Regra, um documento papal da segunda metade do século XIII, era dito que o conjunto das cores dos hábitos das clarissas (as religiosas dessa ordem já tinham essa denominação) não poderia ser nem totalmente branco, nem totalmente preto. Portanto, em sua maioria, pelo que pude observar, o véu era preto, a pala branca e o corpo do hábito, este sim era cinza. Para a peça, foi decidido que no figurino da irmã Cecília (Carolina Mesquita) utilizaremos uma cor que mescla o bege com o marrom para o hábito, por motivos de iluminação teatral. O véu continua preto e a pala branca.
O tecido também era da pior espécie. Um algodão batido, cru, pois a maneira de viver das clarissas, pela chamada "via da pobreza" impedia que elas tivessem qualquer pretensão a vaidade, o que já não era possível. Tanto é que as atrizes se vestem necessariamente sem olhar para nenhum espelho, tal como era feito nessas ordens antigas. Para os tecidos do figurino de Cecília foram utilizados cotton branco (pala) e preto (véu) e algodão cru (para o hábito). Além dessas cores, há ainda a presença de um cordel de algodão branco, à altura da cintura da freira, um cordel que segura um pequeno crucifixo de madeira rústica. Das duas personagens, Cecília é a única a usar uma sandália surrada. É a chamada "irmã externa", que exerce funções fora dos muros do Convento, com permissão, portanto, para trafegar a pé pelas ladeiras da Cidade da Bahia.
Para o design do figurino de Cecília, ainda foram feitas pesquisas (e desenhos) a partir de filmes como "Nun's Story", com Audrey Hepburn, dirigido por Fred Zinnemann, e dois filmes com a atriz Deborah Kerr, "Heaven Knows, Mr. Allison" (direção de John Huston) e "Black Narcisus". Os movimentos eram captados para o papel quando os filmes, assistidos em DVD, eram pausados. Para o caso de Mariana, outra pesquisa feita foi em "Irmão Sol, Irmã Lua", de Franco Zeffirelli. A camisola de São Francisco de Assis serviu de inspiração para o figurino da personagem.
Para irmã Mariana (Débora Aoni), pensei naqueles camisolões, ao estilo do usado pela Rainha Vitória I na noite em que ela foi acordada para receber a notícia de que era a soberana inglesa, aos 18 anos. Aquele tipo de camisolão juvenil que deixa aparecer apenas os dedos das mãos e dos pés. Mariana guarda essa juventude, mas também guarda o desespero do animal acuado. A camisola de Mariana, que é branca, foi confeccionada em cambraia. Como a personagem está sofrendo de depressão, à moda dos escravos nas senzalas, a roupa será castigada por manchas, sujeira, amassados. Mariana está sempre descalça. E só veste a camisola sobre seu corpo.
A brilhante execução das roupas ficou a cargo da figurinista Ray Lopes, do apoio cenotécnico da Cênicas, na USP. Ray produziu duas mudas de roupa para cada atriz, sendo que o véu (de exatos 3 metros de cotton preto) e a pala de Cecília, por sua vez, foram feitos cada um em uma única muda . As duas atrizes foram imprescindíveis nas decisões sobre o que precisavam para suas personagens, em relação a seus figurinos, nos detalhes daquilo que irão vestir, a questão dos bolsos, das passagens de mãos (no figurino de Cecília), da mudança da camisola de Mariana para um modelo com design tipo "A", de forma que a atriz fique bem folgada dentro dela. Como disse a própria Débora, dia desses, que ela se sente um bichinho dentro desta camisola. Além disso, outras preciosas dicas sobre cores vieram da preparadora de elenco, Fernanda Levy, que foi quem sugeriu a Carolina que ficasse dias inteiros vestida de hábito, para que se acostumasse com os movimentos do figurino, fazendo de tudo em casa. O diretor, Eduardo Sofiati, ficou bem satisfeito com o resultado obtido em cena.
Não podemos esquecer o fato de que esta ordem, das clarissas urbanitas (que seguiam a Regra do Papa Urbano IV), durou seiscentos anos mas se encontra extinta. As últimas três religiosas desta Ordem faleceram no início do século XX. Portanto, nós utilizamos mesmo de uma deliberada licença poética nos figurinos de "DO CLAUSTRO", pois não se
trata necessariamente de um trabalho de reconstituição histórica. É teatro.
Ruy Jobim Neto

3 comentários:
Muito interessante todo esse estudo, toda essa preparação.... Só de ver estes figurinos e aprender mais sobre os "Hábitos" das freiras, já me sinto claustrofófica... Talvez, daí o nome da peça do Claustro!!!! rsrsrs
Ruy, que você tenha muito sucesso neste novo trabalho.....
Beijo Querido!
A.R.
Ruy
Quanta informação interessante. Quando comecei a ler, queria não parar mais e quase me imaginei naquele lugar, naquele tempo, com aqueles hábitos.
E gosto quando você fala da liberdade na concepção. Você sabe o que elas usavam e a partir disso pode ter liberdade para criar algo que vá além e atenda as necessidades da cena!
Abraços!
Adorei passar por aqui!
Adélia
queridas!!!!!!!!
adorei que vocês passaram por aqui!!!!
Adelia, vc sempre tão maravilhosa nas palavras!
Amanda, você é outra criaturinha cujas palavras são muito fofas!!!!
beijos às duas!!!!!
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